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sábado, 23 de maio de 2009

"Quando exprimir é errar": Bernardo Soares / Fernando Pessoa – Livro do Desassossego (trecho 349)

A mais vil de todas as necessidades - a da confidência, a da confissão. É a necessidade da alma de ser exterior.
Confessa, sim; mas confessa o que não sentes. Livra a tua alma, sim, do peso dos teus segredos, dizendo-os; mas ainda bem que os segredos que digas, nunca os tenhas tido. Mente a ti próprio antes de dizeres essa verdade. Exprimir é sempre errar. Sê consciente: exprimir seja, para ti, mentir. Fernando Pessoa – Bernardo Soares


“Exprimir é sempre errar”. Exprimir como verdade confessional da alma é errar. Sabe-se que essa expressão da alma como verdade provém, sobretudo, de um pensamento ligado a uma tradição cristã, que interioriza a alma. Idéia essa que perpassou e ainda perpassa muitos pensamentos.
No entanto, detenho-me ao trecho de Bernardo. “Exprimir é sempre errar” – frase que dá à consciência (numa posição anterior a todo íntimo absoluto) o meio para livrar a alma dos segredos. Ou melhor, dizer os segredos sim, mas como uma mentira que sempre está antes da verdade intimista da alma, pois esta sempre que expressa indica um segredo que quem o disse nunca o teve. Se há na confissão a necessidade da alma ser exterior, isto só é possível como erro – nunca se têm segredos senão como erro.
Bernardo não destrói a alma ou a confissão ou a verdade ou a mentira. Ao contrário ele as vive, mas para além do que poderia ser uma oposição. Nele o erro não se opõe ao certo, nem a verdade à mentira. Pode-se dizer com ele: a verdade de uma confissão já é mentir ou a mentira de uma confissão já é a verdade. Assim acontece a exterioridade da expressão.
“Exprimir é sempre errar”, porque a consciência – a do artista – não elimina nada. Faz, ao contrário, da confissão um modo dizer a verdade mentindo. É a expressão confessional que aponta o erro com o qual a arte se faz criação.
Na obra de Pessoa podemos encontrar comumente esse tema. Assim é a carta de Pessoa a Adolfo Casais Monteiro. Impressiona a presença do “exprimir é sempre errar” nessa carta. Pessoa ali não exprime o seu íntimo e muito menos confessa o íntimo da heteronímia – tal carta é um dos exercícios de criação do poeta. E muitos estudiosos se baseiam nela para compreender a verdade de quem foi Pessoa! Esquecem que exprimir é errar e que antes de sua expressão está o acerto de seu erro. Mentir, então, é arte, é estilo, é criação.

sábado, 4 de abril de 2009

Frida Kahlo: Quando a autobiografia é a obra

Auto-retrato com cabelo solto (1947)
Pintura na qual Frida Kahlo deixou
uma legenda autobiográfica.


Seus quadros deixam fortes traços autobiográficos ou “autobiopictóricos”. Penso que, se quisermos conhecer a vida de Frida Kahlo, podemos dispensar uma biografia da artista, pois seus quadros dizem a todo instante que foram feitos por ela, ou ainda, pela vida dela na obra. Kahlo avança e põe sua face não como auto-retrato como comumente fazem os pintores. Seu rosto ali diz: sou o que vivo, o que amo, o que odeio e o que sofro, e pinto a mim mesma. Mas estas sensações estão presentes não na expressão do rosto - que poderia estar triste ou alegre. A presença está nos elementos contidos nas obras, dentre alguns: Diego Rivera, os papagaios, os macacos, as posições políticas, os acidentes físicos e o seu rosto.


Nas pinturas de Frida Kahlo, expor o rosto é algo a mais: é toda a sua trajetória ali, enquanto na obra ela mesma se pinta. Narra sua vida, que é a vida de sua pintura. Não é uma obra que é vida do artista enquanto pinta coisas, mas sua obra é vida enquanto pinta a si mesma - para além de qualquer descrição realista de uma autobiografia ordinária. Expor o rosto como ela fez não se reduz a mostrar simples estados emocionais, mas ela mesma como um ser visível sem segredos. Não há em sua face nenhuma esfinge; simplesmente é sua realidade. Por isso responde, mais tarde, a André Breton quando este classificou a obra da pintora como surrealista: "pensavam que eu era uma surrealista, mas eu não era. Nunca pintei sonhos. Pintava a minha própria realidade". (Jefferson Bessa)

Auto-retrato com macacos e papagaios. (1942)