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sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Os gatos: um poema de Charles Baudelaire




Os amantes febris e os sábios solitários
Amam de modo igual, na idade da razão,
Os doces e orgulhosos gatos da mansão,
Que como eles têm frio e cismam sedentários.

Amigos da volúpia e devotos da ciência,
Buscam eles o horror da treva e dos mistérios;
Tomara-os Érebo por seus corcéis funéreos,
Se a submissão pudera opor-lhes à insolência.

Sonhando eles assumem a nobre atitude
Da esfinge que no além se funde à infinitude,
Como ao sabor de um sonho que jamais termina;

Os rins em mágicas fagulhas se distendem,
E partículas de ouro, como areia fina,
Suas graves pupilas vagamente acendem.

Do livro As flores do mal
tradução: Ivan Junqueira

domingo, 17 de janeiro de 2010

O sonho de um curioso: um poema de Baudelaire ao fotógrafo Félix Nadar

Conheces tu, como eu, a dor saborosa?
E que te faz dizer: "Oh! homem singular!"
— Morrer eu ia. Havia, em minha alma amorosa,
Misto de êxtase e horror, um mal particular;

Desespero e esperança, indiferença ociosa.
Quanto mais a ampulheta eu via a se esvaziar,
Mais a tortura me era atroz e deliciosa;
Meu coração fugia ao mundo familiar.

Eu era como a criança à espera do espetáculo
Odiando o pano como se odeia um obstáculo...
Mas a fria verdade enfim se revelou:

Eu morrera sem susto, e a terrível aurora
Me envolvia. - Mas como? O que então se passou?
O pano já caíra e eu não me fora embora.

Tradução Ivan Junqueira

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009