Mostrando postagens com marcador Ferreira Gullar. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ferreira Gullar. Mostrar todas as postagens

sábado, 23 de julho de 2011

Falar: um poema de Ferreira Gullar




A poesia é, de fato, o fruto
de um silêncio que sou eu, sois vós,
por isso tenho que baixar a voz
porque, se falo alto, não me escuto.

A poesia é, na verdade, uma
falta ao revés da fala,
como um silêncio que o poeta exuma
do pó, a voz que jaz embaixo
do falar e no falar se cala.
Por isso o poeta tem que falar baixo
baixo quase sem fala em suma
mesmo que não se ouça coisa alguma.

Do livro EM ALGUMA PARTE ALGUMA

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Ferreira Gullar: o poema Tato




Na poltrona da sala
as mãos sob a nuca
    sinto nos dedos
    a dureza do osso da cabeça
    a seda dos cabelos
    que são meus

A morte é uma certeza invencível


    mas o tato me dá
    a consciente realidade
    de minha presença no mundo

Do livro Muitas Vozes



Após decidir postar esse poema de Ferreira Gullar no blog, encontrei esta fotografia do poeta na Internet. Não sei quem a registrou, não encontrei os créditos. Mas não pude deixar de ver a presença do poema nesta fotografia. Nela - assim como no poema - está a presença do tato em con(tato). Na leveza de sentir as mãos passarem o corpo, a consciência da realidade afirma a presença. Como um pintor sente a tinta sobre mão e assim sente a presença dele no mundo e vice-versa. A experiência táctil pode confirmar a "certeza invencível da morte" na ausência do corpo. No entanto, para além da morte, o tato nos dá a experiência imediata e plena "de minha presença no mundo", como a fotografia acima na qual o poeta (é minha leitura) não esconde o rosto, mas sente a si mesmo (enquanto presença) no tato que desliza sobre o rosto. (Jefferson Bessa)

sábado, 14 de março de 2009

Barulho - Ferreira Gullar


Todo poema é feito de ar
apenas

            a mão do poeta
            não rasga a madeira
            não fere
                         o metal
                         a pedra
            não tinge de azul
            os dedos
            quando escreve manhã
            ou brisa
            ou blusa
                          de mulher.

O poema
é sem matéria palpável
              tudo
              o que há nele
              é barulho
                          quando rumoreja

                          ao sopro da leitura.